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Iniciativas

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Viagem de Cosme III de Médicis em Portugal no ano de 1669

13-7-2013Casa-Museu · Centro Cultural João Soares, Cortes, Leiria
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Decorre até final do ano presente, no Centro Cultural João Soares, em Cortes (Leiria), uma importante exposição, organizada pelo historiador de arte e pintor Jorge Estrela, sobre a "Viagem de Cosme III de Médicis em Portugal no ano de 1669", para a qual se chama a devida atenção dos estudiosos. (...)

(...)É imperioso que as pessoas venham ver esta exposição, que nos mostra o que podem ser consideradas imagens reais do Portugal do século XVII e que deixa vislumbrar como, no fim de contas, ainda subsiste muito do património português, entre o acervo visitado pelo ilustre florentino e que foi criteriosamente observado pela comitiva da embaixada.

A exposição, promovida pela Fundação Mário Soares, constitui-se antes de mais como uma espécie de visita guiada ao Portugal de Seiscentos, através das contingências da viagem realizada nesses meses de Janeiro a Março de 1669 em que a comitiva de Cosme III de Médicis (1642-1723) esteve em terra portuguesa. Tudo se estrutura, em termos expositivos, à luz dos relatos dos cronistas Lorenzo Magalotti e Filippo Corsini, que acompanharam Cosme de Médicis, e através dos trinta e quatro preciosos desenhos de Pier Maria Baldi (1630-1686), o pintor do Grão-Duque, conservados na Biblioteca Medicea Laurenziana, em Florença.

Trata-se de uma iniciativa cultural de relevo, que não se subordina a uma dimensão regional, antes se integra nos estudos que, em anos recentes, têm sido desenvolvidos em nome de uma História da Arte topográfica, de que são óptimos exemplos vários estudos de reconstituição cripto-histórica de edifícios desaparecidos e, concretamente, o projecto da FCT, realizado por Pedro Flor e sua equipa, a respeito da Lisboa do tempo de D. Pedro II (a partir do célebre painel do Museu do Azulejo com a vista da cidade, da autoria de Gabriel del Barco). Também a presente exposição patente ao público em Cortes tem interesse histórico vasto e plural, que importa relevar devidamente — não só porque a relação entre as descrições da viagem e as imagens das várias etapas é pela primeira vez proporcionada, na sua globalidade, mas também porque nela se utilizam todos os desenhos aguarelados de Baldi a partir de um processo de animação cromática digital (numa perspectiva de recriação que compromete o autor nas opções tomadas), cujo uso permitiu ao comissário Jorge Estrela realçar as zonas que, mercê das manchas e apagamentos, estavam perdidas nos originais, devolvendo informações desconhecidas sobre a viagem e destacando a previsível beleza dos sítios tal como foram visualizados em 1669.

A passagem pelo nosso país, sendo ainda recente a pacificação com Castela depois das Guerras da Restauração, decorreu entre 9 de Janeiro, quando a comitiva florentina entrou por Campo Maior, vinda de Badajoz, e terminou a 1 de Março, na fronteira de Caminha, quando Cosme regressou a Espanha, em direcção a Inglaterra. Como se sabe (pelo menos desde 1933, quando Ángel Sánchez Rivero organizou a edição espanhola desta viagem do grão-duque, publicando muitas das ilustrações de Baldi; de 2004, existe uma segunda edição crítica da viagem de Cosme, organizada por Paolo Caucci von Saucken), o empreendimento de Cosme III teve peso político na Europa do seu tempo, pelo seu empenho em descobrir as valências históricas, culturais, ambientais e militares dos reinos ibéricos, e pelo não escondido interesse em repensar as verdadeiras razões da vitória militar portuguesa contra a grande Espanha, que se deveu à astúcia, à estratégia e ao heroísmo mas, sobretudo, ao talento vanguardístico dos construtores de fortificações ao serviço de D. João IV e de D. Afonso VI.

Na realidade, quando se fez a viagem, era ainda Grão-Duque da Toscana o seu pai Ferdinando II, que animou o indigitado sucessor a conhecer melhor a Europa. Uma das razões para estimular o périplo fora da Toscana residia no facto de ser infelicíssimo o casamento de Cosme com a caprichosa dama francesa Margarida Luísa de Orleans, neta de Henrique IV e prima de Luís XIV, cujos gastos imoderados e humores extremos contribuíram para o temperamento merencoroso do príncipe.

Ao regressar da viagem à Península Ibérica, Cosme tomará enfim as rédeas do Grão-Ducado, que governará de 1670 a 1723, longo período pautado afinal por medidas ultra-reaccionárias, em que a crise económica se cruzou com acções anti-semitas e com impopulares leis de moralização dos costumes, que contribuíram para depauperar o território.

O culto e sensível Cosme da viagem portuguesa transforma-se num governante absolutista, impopular, católico de exacerbado proselitismo e inábil na legislação.

Os seus esforços para manter o Grão-Ducado faliram, pois o seu filho e sucessor Gaston de'Medicis (1671-1737) (aliás celebrado num famoso romance de Dominique Fernández, O Último dos Médicis, galardoado com o Prémio Goncourt) faleceu sem descendência, passando a Toscana para a posse da Casa de Lorena. Se Cosme III veio a Portugal para se distrair da crescente hostilidade da esposa francesa, é certo que o moviam, sobretudo, interesses culturais, artísticos e políticos. Tal como, em Amsterdam, quis conhecer Rembrandt, aqui pretendeu descobrir os segredos e estratégias da arquitectura militar e da fortificação, pelo que encontrou heróis da Restauração como Dinis de Melo e Castro, conde de Galveias, vencedor da batalha de Montes Claros, e os arquitectos Antoniachi, Nicolau de Langres e Michel d'École, entre outros.

Os desenhos de Baldi pululam de trechos militares, tal como os relatos dos cronistas da viagem. Como se sabe, esta visita a Portugal era considerada importante para a Toscana dada a força dos laços que existiam desde sempre, havendo natural curiosidade por parte da Toscana, mergulhada em crise socio-económica e política, em avaliar a situação do Reino português após a para muitos inesperada vitória face à grande potência espanhola. Mas também interessou ao futuro Grão-Duque conhecer a paisagem (são preciosos os pormenores descritivos dos desenhos de Baldi, como Estrela sublinha), a construção rural (como os casos de Patalim e Landeira), os palácios e igrejas (Évora, Santarém, Lisboa, Coimbra, Porto…), a vida religiosa e a missionação (a do Congo, por exemplo), tendo-se encontrado com personalidades como o Padre António Vieira e visitado as instalações jesuíticas da Universidade de Évora. Os trinta e quatro desenhos são de excelência pelo detalhismo arguto das vistas de vilas e cidades visitadas. A exposição segue a par e passo essas descrições dos lugares de visita, a partir dos desenhos de Baldi (devidamente 'animados' pelo processo de revalorização cromática já referido), em articulação com os textos de Corsini e Magalotti e as observações de Estrela explicando melhor aquilo que é visível, bem como as perdas patrimoniais sofridas nestes trezentos e quarenta e dois anos de História.

Esta é, por tudo o que dito fica, uma exposição rara – visita obrigatória, portanto.

A nosso ver, deveria ser vista em Lisboa, numa segunda fase, pois tem um alcance cultural muito vasto. Uma última palavra para a metodologia seguida por Jorge Estrela, que levou a cabo com talento e paciência uma espécie de re-criação artística dos desenhos de Baldi, com o objectivo, não de os embelezar em termos contemporâneos, mas justamente de os tornar reviviscências, tendo procedido assim à animação de imagens, uma a uma, para lhes devolver existência, fiel ao princípio de que "a obra de arte é múltipla no seu destino e tem vida própria para além do território temporal restrito a que está confinada". Estas imagens de Baldi-Estrela têm um peso informativo muito mais amplo, nesta recomposição a que foram sujeitas. E, mais, integram-nos a todos na comitiva e na assistência da viagem de 1669, como se dela todos fizéssemos parte.

Caldas de Monchique
Vitor Serrão

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