Um olhar para a memória
 
Novas fotografias do 25 de Abril de 1974
 

 

25 de Abril

 

00.25 - No programa «Limite», da Rádio Renascença, Leite de Vasconcelos lê a primeira estrofe do poema “Grândola Vila Morena”, de José Afonso, seguida da transmissão integral da canção – está dada a confirmação do início das operações militares.

02.40 - Forças da Escola Prática de Engenharia saem do quartel de Tancos em direcção á ponte da Golegã-Chamusca, a fim de se juntarem aos elementos das Companhias de Caçadores de Santa Margarida.

03.00 - A coluna da Escola Prática de Administração Militar toma a RTP (Estúdios do Lumiar), sob o comando do capitão Bento. Apesar da adesão generalizada dos trabalhadores, registou-se “no Centro Emissor de Monsanto (...) uma interferência provocada por forças da reacção”, que provocará o sucessivo adiamento da emissão até ao final da tarde. O tenente-coronel Carlos Azeredo, com uma força do Centro de Instrução de Condução Auto nº l, neutraliza o Quartel-General da Região Militar do Porto, onde instala o posto de comando do Movimento no Norte do País. O Centro de Operações Especiais de Lamego dirige-se para o Porto, com a missão de ocupar a delegação da PIDE/DGS. Duas companhias do Batalhão de Caçadores 5 cercam o Quartel-General da Região Militar de Lisboa, ao mesmo tempo que é ocupado o Rádio Clube Português por um grupo de militares comandado pelo Major Costa Neves. Viaturas do Campo de Tiro da Serra da Carregueira ocupam a Emissora Nacional.

04.20 - Forças da Escola Prática de Infantaria (Mafra) assumem o controlo do Aeroporto da Portela, interditando o espaço aéreo nacional.

04.26 - Joaquim Furtado lê aos microfones do Rádio Clube Português o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas. Neste apela-se aos habitantes de Lisboa “no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma.” Apela-se também aos comandos das forças militarizadas “no sentido de serem evitados quaisquer confrontos com as Forças Armadas.” Os médicos deveriam dirigir-se para os hospitais, no caso de serem precisos. Apesar deste comunicado e dos renovados apelos feitos no sentido da população permanecer em casa, os lisboetas saem à rua, seguindo de perto as movimentações militares.

04.45 - O Rádio Clube Português emite um novo comunicado do MFA, em que se afirma que “serão severamente responsabilizados todos os comandos que tentarem, por qualquer forma, conduzir os subordinados à luta com as forças armadas.”

05.15 - O MFA continua a aconselhar a população a permanecer nas suas casas, através de um comunicado difundido aos microfones do Rádio Clube Português, ao mesmo tempo que lança um aviso “a todos os componentes das forças militarizadas, nomeadamente às forças da GNR, PSP e ainda às forças da DGS e da Legião Portuguesa, que abusivamente foram recrutadas” para que não oponham “qualquer reacção às Forças Armadas”.

05.45 - É lido no Rádio Clube Português um novo comunicado do MFA, responsabilizando os comandos das forças militarizadas e policiais “caso incitem os seus subordinados à luta armada”.

06.00 - O Capitão Salgueiro Maia, comandando uma coluna da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, atinge um dos principais objectivos do movimento, ocupando o Terreiro do Paço e controlando o Banco de Portugal, a Rádio Marconi e os ministérios. Entretanto, Marcelo Caetano procurou refúgio no quartel da GNR, no Largo do Carmo.

06.30 - O Estado-Maior da Força Aérea tenta, em vão, mobilizar as forças paraquedistas para se concentrarem nas instalações de Monsanto. Os membros do governo que se haviam dirigido para o Ministério do Exército fogem por um buraco aberto na parede e rumam ao Regimento de Lanceiros 2, em Belém, onde tentam assumir o comando da reacção das forças governamentais.

06.45 - Novo comunicado do MFA lido aos microfones do Rádio Clube Português, em que é reafirmado “o objectivo de se evitar derramamento de sangue” e, ao mesmo tempo, sublinhado que “não se hesitará em responder decidida e implacavelmente a qualquer oposição que se venha a manifestar.”

07.00 - A coluna militar proveniente da Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas ocupa posições junto ao Cristo-Rei. Ao mesmo tempo, forças revoltosas tomam posições na Ponte da Arrábida, no Porto, e dirigem-se para o Forte de Peniche.

07.30 - Novo comunicado do MFA lido aos microfones do Rádio Clube Português por Luís Filipe Costa.

07.42 - A Emissora Nacional deixa de emitir. Voltará ao ar cerca das 8.25 horas, já sob o controlo de elementos afectos ao MFA, que emitirão um comunicado.

08.00 - Forças governamentais de Lanceiros 2, com carros de combate, posicionam-se na Ribeira das Naus. O governo manda cortar a energia eléctrica e os telefones do Rádio Clube Português, ao mesmo tempo que a Legião Portuguesa tenta interceptar a emissão, que continua no ar graças a geradores.

09.00 - A fragata “Gago Coutinho”, a mando do Estado-Maior da Armada, abandona o exercício Dawn Patrol da NATO e toma posição frente ao Terreiro do Paço, ameaçando directamente as forças comandadas por Salgueiro Maia.

10.00 - Carros de combate M47 de Cavalaria 7, sob o comando do brigadeiro Junqueira dos Reis, avançam, pela rua do Arsenal, contra as forças de Salgueiro Maia, que consegue desmobilizar parte substancial das forças governamentais, assegurando deste modo o controlo do Terreiro do Paço e da Baixa.

10.30 - O agrupamento Norte chega ao Forte de Peniche.

10.40 - O Rádio Clube Português emite um comunicado do MFA: “Verifica-se que a população civil não está a respeitar o apelo já efectuado várias vezes para que se mantenha em casa”, pedindo “mais uma vez à população que permaneça nas suas casas a fim de não pôr em perigo a sua própria integridade física”.

11.00 - As forças da EPC, comandadas por Salgueiro Maia, começam a dirigir-se para o quartel da GNR, no Largo do Carmo, onde estão Marcelo Caetano e diversos outros ministros. Simultaneamente, forças revoltosas dirigem-se para o quartel da Legião Portuguesa, na Penha de França, que se renderá cerca das 13.30.

11.45 - O MFA emite um novo comunicado em que afirma dominar a situação, não tardando a “hora da libertação” e determina o encerramento dos estabelecimentos comerciais, sob pena de decretar o recolher obrigatório.

12.00 - A fragata “Gago Coutinho” retira-se para o mar da Palha.

12.30 - O quartel-general da GNR no Carmo é cercado pelas forças da Escola Prática de Cavalaria, comandadas por Salgueiro Maia.

13.00 - Forças da GNR tomam posição na retaguarda das forças revoltosas que cercam o Quartel do Carmo. Forças do RC3 (Estremoz) recebem ordens para ir reforçar a posição de Salgueiro Maia.

14.00 - Nuno Távora e Pedro Feytor Pinto, Secretário de Estado da Informação e Turismo, entregam uma carta a Spínola oferecendo-se como mediadores com Marcelo Caetano, sugestão que é aceite.

14.30 - O MFA reafirma aos microfones do Rádio Clube Português o controlo da situação.

14.50 - Manifestação de jovens no Rossio.

15.00 -Salgueiro Maia recebe ordens do Posto de Comando da Pontinha para forçar os portões do Quartel da GNR no Carmo, se as forças sitiadas não aceitarem a rendição.

15.10 - Salgueiro Maia manda disparar rajadas de armas ligeiras contra o edifício do Quartel do Carmo. Renova o ultimatum para que as forças da GNR saiam desarmadas. Nuno Távora e Pedro Feytor Pinto dirigem-se ao Carmo e, depois de falarem com Salgueiro Maia, conferenciam com o Ministro do Interior e depois com o próprio Marcelo Caetano. Este afirma que, para que o poder não caísse na rua, estava disposto a render-se a Spínola. Entretanto, no Rossio, sucedem-se manifestações de jovens, sendo apedrejadas as montras dos estabelecimentos bancários.

15.15 - O posto de comando do MFA dá ordem às forças posionados no Cristo-Rei que se dirijam à prisão militar da Trafaria, onde libertam os militares aí presos na sequência do golpe das Caldas da Rainha.

16.30 - Marcelo Caetano telefona a Spínola, solicitando com urgência a sua comparência no Quartel do Carmo. Spínola incumbe Dias de Lima e António Ramos de ir ao Rádio Clube Português para entrarem em contacto com o Comando do Movimento. Spínola telefona para o Posto de Comando e fala com Otelo, que lhe garante que responderá assim que souber a posição do Movimento.

17.00 - O Comando do Movimento contacta telefonicamente António de Spínola, concordando que se dirija ao Quartel do Carmo e aceite a rendição de Marcelo Caetano. O Presidente do Conselho deverá ser transportado para o Quartel de Engenharia da Pontinha.

18.00 - O general Spínola chega ao Quartel do Carmo para negociar a rendição de Marcelo Caetano e do governo. O ambiente no Largo do Carmo é de grande entusiasmo.

18.15 - O Posto de Comando do MFA emite novo comunicado, em que anuncia “que conseguiu forçar a entrada no quartel da GNR situado no Largo do Carmo”, que obteve a rendição de Lanceiros 2, “sem que houvesse necessidade do emprego da força que os cercava” e que “a quase totalidade da GNR, incluindo o seu comandante e a maioria dos elementos da PSP já se renderam ao MFA”.

18.30 (cerca das) - Um grupo de manifestantes, sobretudo jovens, dirige-se para a Rua António Maria Cardoso, posicionando-se junto da sede da PIDE/DGS, que não estava incluída nos objectivos militares dos revoltosos, gritando palavras de ordem contra a polícia política. De diversas janelas do edifício são disparados tiros de pistola e rajadas de metralhadora, provocando dezenas de feridos e quatro mortes. Um esquadrão de Cavalaria 3 de Estremoz aproxima-se do edifício, apontando as suas armas. Pouco depois, um corpo da polícia de choque toma posição no Largo do Picadeiro, anunciando por megafone que aderira ao movimento, mas que recebera ordem de Spínola para “limpar as ruas de Lisboa”. Na António Maria Cardoso, o impasse continuaria por várias horas.

18.40 - O Centro Emissor de Monsanto entra finalmente no ar: Fernando Balsinha anuncia na RTP que o MFA será responsável por uma edição especial do Telejornal e Fialho Gouveia lê uma declaração do Movimento.

19.30 - Rendição incondicional do Presidente do Conselho. Marcelo Caetano abandona o Quartel do Carmo, acompanhado por Moreira Baptista, Rui Patrício e o comandante Coutinho Lanhoso. Dirigem-se para a Pontinha a bordo de uma viatura blindada Chaimite de nome “Bula”. Spínola segue numa viatura civil. A multidão concentrada no Carmo exprime o seu entusiasmo. Pouco depois, elementos do MFA iniciam as negociações com Américo Thomaz.

19.45 - A rendição de Marcelo Caetano é anunciada na RTP.

20.00 - Spínola dirige-se para o Posto de Comando da Pontinha, depois de assumir o poder no Carmo.

20.05 - É lida uma Proclamação do Movimento das Forças Armadas, “que acaba de cumprir com êxito a mais importante das missões cívicas dos últimos anos da nossa História”. Aí se afirma, designadamente, “a sua intenção de levar a cabo, até à sua completa realização, um programa de salvação do País e de restituição ao Povo Português das liberdades cívicas de que vem sendo privado. Para o efeito, entrega o Governo a uma Junta de Salvação Nacional a quem exige o compromisso, de acordo com as linhas gerais do Programa do Movimento das Forças Armadas que, através dos órgãos informativos, será dado a conhecer à Nação, de no mais curto prazo consentido pela necessidade de adequação das nossas estruturas, promover eleições gerais de uma Assembleia Nacional Constituinte”.

20.30 - Spínola chega ao Posto de Comando da Pontinha.

21.00 (cerca das) - Populares manifestam-se no Largo de Camões, junto à Rua António Maria Cardoso, onde era a sede da PIDE/DGS, insistindo junto dos militares para que actuassem, agora que já estava dominado o Largo do Carmo. Um agente da DGS é morto quando procurava fugir. A situação mantém-se indefinida.

22.00 - Na prisão de Caxias, a DGS e a GNR mantêm as suas posições. As tropas paraquedistas comandadas por José Brás e Mário Pinto são as primeiras a chegar ao local, sendo mais tarde apoiadas por fuzileiros que organizam um cordão de segurança no reduto norte. A multidão aflui a Caxias para exigir a libertação dos presos políticos, seguindo-se longas conversações entre os advogados e familiares dos presos e o enviado de Spínola, que manifesta a intenção de não libertar todos os presos. Os presos políticos começam a sair em liberdade.

 

 
 
 
 
© Mário Varela Gomes, Associação dos Arqueólogos Portugueses, Fundação Mário Soares  
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