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Ditadura Militar, Estado Novo e Resistência (1926 - 1974)

6 - Marcelismo - a crise final (1968-1974)

A «renovação na continuidade» anunciada por Marcelo Caetano, começou por suscitar, num país ansioso por mudanças, uma expectativa francamente benévola. Aliás reforçada por várias iniciativas reveladoras de um outro estilo: Mário Soares e o bispo do Porto regressam do exílio; há um abrandamento inicial da censura; começam as «conversas em família»; renova-se a direcção da União Nacional (rebaptizada como Acção Nacional Popular em 1970); aprovam-se medidas de descompressão no campo sindical; prometem-se eleições transparentes para 1969; permite-se às oposições reunir o II Congresso Republicano de Aveiro.

O marcelismo beneficiava do apoio dos jovens da «ala liberal» - Sá Carneiro, Pinto Leite, Pinto Balsemão - e de outros tecnocratas que aceitarão integrar as suas listas para as eleições ou o novo Ministério que lhes suceder.

Aliás, esta expectativa de abertura não deixará de ser partilhada no campo oposicionista, onde se resolve ir às urnas nas eleições.

Em Lisboa, Porto e Braga concorrem listas separadas: de um lado a CEUD, afecta à ASP e a um campo socialista à procura do seu próprio espaço de influência, do outro a CDE, frente do PCP com católicos progressistas e outros sectores de esquerda. Mas não será só, nem principalmente, a persistência das irregularidades básicas e dos abusos policiais com que se fabricou a vitória eleitoral caetanista que vai obscurecer a abertura inicial. O nó górdio da questão persistia - era a guerra colonial.

A política de «autonomia progressiva» advogada por Caetano implicava prolongar a guerra sem solução à vista. E ele não pôde, nem soube ou não quis encarar, a tempo, uma saída política para o conflito - o que haveria de pôr fim aos ensaios de liberalização e ao próprio regime.

A revisão constitucional frustrada de 1970-71, a reeleição de Américo Tomás - o chefe de fila dos «ultras» - para a Presidência da República, a anulação política e consequente abandono da «ala liberal» da Assembleia, a revogação da tímida abertura sindical anterior e o novo arreganho repressivo de uma DGS (que relativamente à PIDE só mudara o nome) - serão o canto do cisne do marcelismo. Mário Soares é novamente empurrado para o exílio. Inspirados no clima internacional de radicalização política e precedidos por uma vigorosa explosão da luta estudantil, em Coimbra e em Lisboa, em 1969, multiplicam-se as organizações de extrema-esquerda. Desenvolvem-se um activo combate à guerra colonial e ao regime secundados por grupos de militantes católicos.

Desencadeiam-se, a partir de 1970, acções de sabotagem contra alvos militares ou da NATO. Alarga-se e organiza-se a agitação sindical com greves e manifestações.

Fundado no exterior em 1973, o PS estabelece com o PCP um acordo de luta contra o regime. Nesse ano, o III Congresso da Oposição em Aveiro - aliás, atacado pela polícia de choque - lança-se numa aberta denúncia do regime e da guerra: a oposição resolve boicotar o simulacro eleitoral desse ano. A inviabilidade de uma solução política para a questão colonial suscita, também, reacções em certos sectores das chefias militares e sobretudo nos agitados meios dos oficiais intermédios - dos capitães - que suportavam no terreno o peso principal da luta antiguerrilha.

Spínola vê Caetano inviabilizar a busca de um acordo com o PAIGC, por ele ensaiado enquanto governador da Guiné. Apoiado pelo CEMGFA, general Costa Gomes, Spínola publica, em fins de 1973, o livro Portugal e o Futuro, onde se defende uma solução federalista contrária à política oficial. A importância do livro será a de dar ao Movimento dos Capitães, até aí movendo-se por razões corporativas, o sinal de que ele tinha cobertura e legitimidade para passar à conspiração política.

A 14 de Março de 1974, o Governo respondia à desafiadora ausência de Costa Gomes e de Spínola ao juramento de fidelidade dos generais da «brigada do reumático», demitindo-os.

Dois dias depois dava-se a saída em falso das Caldas da Rainha, ensaio do movimento militar com que a 25 de Abril os capitães poriam fim ao marcelismo e a 48 anos de regime ditatorial.



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