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Ditadura Militar, Estado Novo e Resistência (1926 - 1974)

5 - À espera do fim (1958-1968)

Membro fundador da NATO, o Portugal de Salazar vive nos anos 50, em plena Guerra Fria, um período de franca aceitação por parte dos países ocidentais e não só. Era uma paz ilusória: os ventos da descolonização varriam os impérios europeus desde o fim da guerra. Logo após a independência, a União Indiana, inicialmente através de meios diplomáticos ou das manifestações pacíficas dos «satiagrai», exige a integração dos territórios de Goa, Damão e Diu na União. Arrasta-se a contenda diplomática, com incidentes vários no terreno, até passar pelo Tribunal Internacional da Haia.

Entretanto, a entrada de Portugal na ONU, em 1956, vai colocar a questão da descolonização dos restantes domínios coloniais portugueses, sobretudo em África. Optando por uma postura rigidamente integrista, o Governo português transforma semanticamente as «colónias» em «províncias ultramarinas» e o «Império» em «Ultramar». Salazar, ao invés das demais potências coloniais, pensa poder contrair os «ventos da mudança» que chegavam a África. Mas, em Dezembro de 1960, culminando um longo processo de pressões, a Assembleia Geral das Nações Unidas declara os territórios sob a administração portuguesa como colónias, reconhecendo-lhes o direito à autodeterminação.

Em Março de 1961, com o apoio da nova Administração Kennedy nos EUA, a UPA desencadeia a guerra colonial no Norte de Angola.

Como que anunciando o princípio do fim do Império, a União Indiana, em Dezembro de 1961, ocupa militarmente Goa, Damão e Diu. Progressivamente, a guerra colonial, retomada em Angola pelo MPLA e mais tarde pela UNITA, generaliza-se à Guiné (1963) e a Moçambique (1964). Após o rápido abandono de um tímido ensaio inicial de reformismo descentralizador, o conflito prossegue interminável, sem solução militar possível, sacrificando dezenas de milhar de jovens mobilizados e uma fatia sempre crescente da despesa pública.

Este impasse, esta lenta agonia de um regime falho de coesão e de convicção, cujo chefe, envelhecido, vai perdendo faculdades, reflecte-se num endurecimento geral da situação interna que, aliás, corre de par com o crescente isolamento internacional.

A crise académica de 1962, que se estende de Março a Junho, marca o surgimento do movimento estudantil como um dos mais aguerridos sectores de combate ao regime. E as manifestações populares de 1 e 8 de Maio em vários pontos do país, seguidas das lutas no Alentejo pelas oito horas de trabalho, assinalam o fim dessa onda de contestação. É certo que o regime lhe sobrevive. Mas não se recompõe. Ferido de morte, o salazarismo iniciava a sua lenta agonia final.

O ano de 1965 é o espelho desses «anos de chumbo», com a violenta repressão antiestudantil, o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores e, sobretudo, com o assassinato pela PIDE do general Humberto Delgado, em Espanha. Mário Soares, que se tornara líder da Acção Socialista Portuguesa, fundada em 1964, é constituído como advogado da família Delgado. Pagará essa ousadia com a deportação para S. Tomé, sem processo, nem julgamento, em Março de 1968.

Mas a longa espera em que nesses anos parecia viver a sociedade portuguesa, chega ao fim com o acidente - «a queda da cadeira» - que, no Verão de 1968 originará a incapacidade física do velho ditador para continuar a governar. Goradas as esperanças do sector ultramontano na sua recuperação, e após uma breve e surda luta de bastidores pela sucessão, o presidente da República, em Setembro de 1968, vê-se forçado a uma decisão: Marcelo Caetano e os reformistas chegavam finalmente ao poder. Só que irremediavelmente tarde.



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