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Ditadura Militar, Estado Novo e Resistência (1926 - 1974)

4 - O terramoto delgadista e a Segunda crise do regime (1950-1958)

Sob a aparente imutabilidade de um regime que, no auge da Guerra Fria retoma o discurso ultraconservador, a sociedade portuguesa do anos 50 iniciava importantes transformações. A industrialização, a terciarização e a urbanização geravam novas realidades e tensões sem possibilidade de expressão na situação vigente.

Também o mundo político mudava. No interior do regime reforçava-se, em torno de Marcelo Caetano, o sector reformista, articulado com o novo Presidente da República, Craveiro Lopes, sendo indisfarçável o seu conflito com a corrente ultramontana - donde se destaca Santos Costa - partidária da conservação a todo o transe do regime e do seu chefe.

No campo anti-situacionista emergia, sob a égide de Cunha Leal e António Sérgio, uma oposição liberal, em pública ruptura com o PCP e os seus aliados do MND, partidária de um entendimento com os seus dissidentes do regime com vista a uma transição controlada. Estratégia a que, sob os ventos da desestalinização, a partir de 1956, o próprio PCP transitoriamente aderirá. E a corrente socialista, em redor de Mário Soares, começa a dar os primeiros passos para se reorganizar.

Lançada por personalidades de oposição conservadora, a «candidatura independente» do general Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958 fará despoletar as tensões silenciosamente acumuladas. O carisma de Delgado - um general saído das fileiras do regime -, a sua coragem, o seu «obviamente demito-o!» lançado contra Salazar, incendeiam o país de norte a sul num movimento de protesto sem precedentes, levando a candidatura de Arlindo Vicente, apoiada pelo PCP, a desistir em seu favor. Delgado seria vencido nas urnas por manifesta fraude eleitoral. Os protestos populares e a agitação política, no entanto, vão prolongar-se não só por esse ano, mas, qual onda de choque, pelos seguintes.

A «Carta do Bispo do Porto», logo após o acto eleitoral, constituirá o sinal para a ruptura histórica de parte do catolicismo com o Estado Novo.

O ano de 1961 será o ano de todas as crises dessa segunda crise histórica do regime. Iniciado com o desvio do paquete Santa Maria por Henrique Galvão e seus apoiantes, segue-se-lhe o assalto às cadeias de Luanda por nacionalistas angolanos, em Fevereiro, e a explosão de violência no Norte de Angola em Março, que marca o início da guerra colonial. O seu efeito directo será a «Abrilada», a tentativa gorada de golpe militar liderada pelo ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, com apoio dos altos comandos. Em Dezembro, a União Indiana ocupa os territórios de Goa, Damão e Diu. O ano termina com a tentativa revolucionária de assalto ao quartel de Beja.



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