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Ditadura Militar, Estado Novo e Resistência (1926 - 1974)

3 - A crise dos anos 40 (1941-1949)

O governo de Lisboa , logo no início da guerra, fixara-se numa política de neutralidade, estabelecida de acordo com a Inglaterra, que parecia imunizar o país aos efeitos do conflito. Mas a ofensiva alemã a oeste, na Primavera de 1940, levando as tropas nazis até ao Atlântico e aos Pirenéus, acaba com essa ilusão.

Os efeitos da guerra - a falta de géneros, a inflação, o açambarcamento - passam a ser duramente sentidos a partir de 1941. As campanhas de «produzir e poupar», ou as tardias medidas de racionamento, minadas pela corrupção generalizada da organização corporativa, não logram conter o descontentamento social. Estalam greves com destaque para a região de Lisboa e da margem Sul, no Verão de 1943 e em Maio de 1944. Serão secundadas pela agitação nos meios rurais e marcadas por crescente influência do PCP.

Beneficiando da viragem pró-aliada da guerra, e do ambiente de descontentamento, as oposições retomam a iniciativa. O PCP, reorganizado, e já sob a direcção de Álvaro Cunhal, consegue agregar todas as forças da oposição no clandestino Movimento de Unidade Antifascista (MUNAF) em fins de 1943. Reacende-se, por parte dos meios republicanos, a conspiração militar, agora a partir das dissidências que minam o regime.

O fim da guerra, em Maio de 1945, é marcado em todo o país pelas grandes manifestações oposicionistas da Vitória. Sob o pretexto da antecipação das eleições para a Assembleia Nacional, a oposição logra impor a tolerância legal para o Movimento de Unidade Democrática (MUD), criado em Outubro de 1945. A sua acção, e depois a do MUD Juvenil, despertam por todo o país uma enorme onda de mobilização e de esperança. Mas recusa concorrer às eleições de Novembro por ausência de garantias mínimas de seriedade.

Por seu turno, o regime ajustava-se ao novo curso do conflito, adoptando uma política de «neutralidade colaborante» com os Aliados, a partir de 1943, quando concede facilidades militares nos Açores à Inglaterra. Apesar das manifestações de agradecimento a Salazar, é em ambiente de instabilidade interna e claramente à defesa que este se vê obrigado a significativos recuos - ainda que formais - em Setembro e Outubro de 1945, designadamente antecipando as eleições. O Estado Novo vive-as entre o pânico e a desorientação. Mas, com o apoio do essencial das Forças Armadas, e o respaldo dos aliados anglo-americanos, aguenta-se. Beneficiando dessa caução externa, do ambiente de guerra fria que se instala e do impasse oposicionista, no início de 1947, Salazar recompõe forças, remodela o Governo e a União Nacional, e lança o contra-ataque.

Entre 1946 e 1948 desarticula o golpe de «10 de Abril» e prende os seus responsáveis civis e militares, demite os professores universitários conotados com a oposição, reprime os derradeiros surtos grevistas em Lisboa e ilegaliza o MUDJ e o MUD, prendendo os seus dirigentes.

As oposições, crescentemente divididas, conhecem um último sobressalto de mobilização, no início de 1949, em torno da candidatura do general Norton de Matos às eleições presidenciais desse ano, onde defronta o velho marechal Carmona. Mas é um gesto contra a corrente. No rescaldo da desistência do general Norton de Matos, a vaga repressiva que se abate vai remeter o oposicionismo para mais alguns anos de dispersão e recuo. Vencida a crise da guerra, o Estado Novo inaugurava uma nova década de «ordem nas ruas e paz nos espíritos».



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