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Casa-Museu Centro Cultural Joo Soares

Exposições Temporárias

Caricaturas de Mário Soares

A presente mostra de Caricaturas de Mário Soares foi concebida a partir da reprodução, em fac-simile, de caricaturas apresentadas na exposição realizada pela Humorgrafe na Presidência da República, em 1995.

Cumprindo o objectivo de divulgação do espólio depositado na Casa-Museu João Soares, a exposição integra também outros trabalhos nela depositados, de origem diversa e sem identificação completa. Por esta razão, algumas das peças expostas não puderam ser devidamente descritas por falta de elementos suficientes.

Julga-se oportuno realçar, pela sua actualidade, as palavras que se seguem, escritas pelo próprio retratado na introdução ao catálogo publicado por ocasião da primeira edição desta exposição:

A democracia é o regime no qual ninguém está acima da crítica. Muitas vezes, melhor do que longos discursos, argumentações cuidadas e raciocínios sofisticados, é com meia-dúzia de traços e uma frase curta, certeira, acerada, inteligente que se desafiam poderes, denunciam situações, de injustiça ou de ridículo, e se diz que "o rei vai nu".

As ditaduras têm, por isso, grande medo e aversão ao humor. Salazar ostracizou os caricaturistas, alguns de génio, que se refugiaram no quotidiano e nos costumes, sendo-lhe em absoluto interdito a caricatura política. Quem não se lembra da extinção do "Sempre Fixe" e dos constrangimentos sofridos por Francisco Valença ou por Stuart? Quando Marcelo Caetano tentou, sem êxito, "liberalizar" o peso da ditadura permitiu o aparecimento de duas, três inocentes caricaturas dele próprio, o que constituiu uma grande novidade. Foi sol de pouca dura.

Ao contrário, os regimes de liberdade sabem que a sátira é um dos meios de reforço e aperfeiçoamento das instituições e dos homens. Já diziam os antigos: "Rident castigat mores".

Ao longo destes mais de vinte anos de democracia, tenho sido um dos alvos privilegiados da nossa democracia satírica, o que muito me honra.

A circunstância de ter estado presente em diversas funções, tornou natural que assim acontecesse, à semelhança de tantos protagonistas, de todos os quadrantes, destas duas décadas tão ricas, interessantes e contraditórias. No que se me refere, houve outras razões de peso: a configuração física que acaso se presta particularmente à caricatura - as bochechas são, por exemplo, tema obrigatório dos caricaturistas -,o estilo um tanto descontraído, a propensão para o improviso, sem grande medo do ridículo, a resposta pronta, que não exclui - como é inevitável quando se trabalha sobre os acontecimentos e sem arame - uma ou outra gaffe...

Tudo isto tem servido de pretexto aos caricaturistas. E, também, naturalmente, os meus actos que mereceram reprovação, crítica, inevitáveis discordâncias. Por vezes, violentas e muito corrosivas.

Tenho-me sempre esforçado, todavia, por considerar as caricaturas que de mim fazem como matéria de reflexão, achando-lhe quase sempre graça, mesmo que as considere tremendamente injustas. Com a passagem do tempo e a distância que traz, verifico que a sátira, frequentemente, perde muito da sua agressividade e que os autores e os visados se podem com ela divertir em conjunto. E o diálogo que daí ocorre acaba por tornar-se um salutar exercício democrático.

A exposição que tive a ideia de promover no Palácio de Belém representa, em primeiro lugar, uma homenagem aos caricaturistas portugueses, que admiro e entre os quais conto alguns amigos. Todavia, a organização e os critérios de selecção dos autores da exposição não me pertence, mas ao coordenador Osvaldo de Sousa, especialista em história do humor gráfico português.

A caricatura política foi um dos meios de luta contra a ditadura e, por isso, sempre reprimida, de diversas maneiras, pela censura. Com razão, aliás, do ponto de vista dos ditadores, porque a caricatura é uma arma terrível!

Depois do 25 de Abril, e com o restabelecimento da liberdade de expressão, a charge política adquiriu um grande fulgor. Apareceram cartoonistas que, com grande originalidade e talento, renovaram a tradição portuguesa, entroncando-a no movimento do cartoonismo internacional mais avançado, e elevando-se ao nível do genial Rafael Bordalo Pinheiro. Nos conturbados e contraditórios anos da Revolução de Abril, o cartoon foi, frequentemente, o comentário crítico mais inteligente e lapidar dos acontecimentos.

Com a institucionalização da democracia, seguiu o seu caminho, na pluralidade das sensibilidade dos vários artistas que a têm cultivado. Quase sempre, com muito talento, reconhecimento nacional e internacional, tenho ganho, justamente, em toda a comunicação social, incluindo a televisão, direito de cidade.

Esta exposição, realizada no Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República, que quis aberta ao público, pretende ter também um sentido pedagógico - lembrar que todos erramos e, por isso mesmo devemos ser criticados, em particular os políticos, e saber corrigir a nossa acção através da crítica. É essa a superioridade da democracia.

O riso é uma forma de inteligência e o talento para o provocar é um grande dom só concedido a alguns seres humanos.

Mário Soares
(Introdução ao livro "20 Anos de Democracia Satírica - Mário Soares Visto por Caricaturistas")

Coordenação e Textos de Osvaldo de Sousa
Exposição organizada por HUMORGRAF
Visita à exposição virtual


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