O CAMPO DA MORTE LENTA

Os apregoados brandos costumes foram, entre nós, uma máscara que ocultava uma realidade de violência e de repressão. Durante quase meio século, milhares de homens e mulheres sofreram na sua dignidade a prisão, a tortura, a deportação e o exílio.

O campo de concentração do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, permanece o símbolo dessa ignomínia, entre tantos outros locais em que a liberdade e, muitas vezes, a própria vida, foram arrancadas aos homens e mulheres que se bateram por um futuro melhor.

Campo da morte lenta, aí estiveram encarcerados, entre 1936 e 1954, 357 anti-fascistas, na sua maioria portugueses e, depois da sua reabertura em 1961, aí estiveram aprisionados 227 nacionalistas das ex-colónias de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

No campo de concentração do Tarrafal, morreram 36 companheiros, além dos que vieram a sofrer toda a vida das enfermidades lá contraídas.

Coonstruído de acordo com os ensinamentos dos campos de concentração da Itália fascista e da Alemanha nazi, o Tarrafal resultou de uma ordem directa do ditador Salazar e sempre funcionou na dependência da polícia política, a PVDE/PIDE/DGS.

Hoje, quando se assiste ao negacionismo dos crimes cometidos por esse regime e pelos seus dirigentes e executores, importa recordar o que foi esse local de aniquilamento de tantos patriotas, prestando homenagem aos que aí tombaram.


Com o empenhamento da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, o Museu do Neo-Realismo, em parceria com a Fundação Mário Soares e a Fundação Amílcar Cabral, apresenta uma exposição documental que dá testemunho do que foi esse campo de concentração nas suas duas fases de funcionamento.

Esta exposição retoma, em novos moldes, a que foi organizada numa das casernas do campo, e aí permanece, a par da que foi organizada pelo Ministério da Cultura da República de Cabo Verde, no âmbito do Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração do Tarrafal, que se realizou em Cabo Verde de 28 de Abril a 1 de Maio de 2009, assinalando o 35.º aniversário da sua libertação.


A exposição está organizada por temas, ilustrados por documentos e fotografias. Figuram ainda na exposição alguns manuscritos e objectos dos presos do Tarrafal. Foi igualmente recriada uma das celas disciplinares da segunda fase do campo, a holandinha - que substituíu a frigideira.