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Memórias do Campo da Morte Lenta

Um filme de Diana Andringa
Imagem: João Ribeiro
Som: Armanda Carvalho
Montagem: Cláudia Silvestre
Música: Abandono" ("Fado Peniche") Poema: David Mourão-Ferreira Música: Alain Oulman Voz: Amália Rodrigues
Assobio: Bruno Morgado
Voz off: Jorge Sequerra
Misturas: João Ganho
Produção e Realização: Diana Andringa
Tempo: 1H30'
Agradecimentos:
A preparação deste filme comportou o acesso aos materiais tratados na Fundação Mário Soares e na Fundação Amílcar Cabral com vista à organização, em 2009, da exposição sobre o campo de concentração do Tarrafal, tendo por base a investigação levada a cabo por Susana Martins em diferentes arquivos, a quem cumpre igualmente agradecer: Arquivo Histórico da Marinha/Biblioteca Central da Marinha, Arquivo Histórico Diplomático, Arquivo Histórico Nacional de Cabo Verde, Arquivos Históricos Nacionais da Guiné-Bissau/Instituto Nacional, de Estudos e Pesquisa, Arquivo Histórico Ultramarino, Biblioteca Nacional de Portugal, Direcção-Geral de Arquivos/Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Fundação Mário Soares, Gabinete de Estudos Sociais do Partido Comunista Português, Sistema de Informação para o Património Arquitectónico – Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (ex-DGEMN).

Memórias do Campo da Morte Lenta

Chamavam-lhe "o Campo da Morte Lenta". Os críticos, naturalmente. Que as autoridades, essas, chamaram-lhe primeiro, entre 1936 e 1954, quando os presos eram portugueses, "Colónia Penal de Cabo Verde" e, depois, quando reabriu em 1961 para nele serem internados os militantes anticolonialistas de Angola, Cabo Verde e Guiné, "Campo de Trabalho de Chão Bom".

Trinta e dois portugueses, dois angolanos, dois guineenses perderam ali a vida. Outros morreram já depois de libertados, mas ainda em consequência do que ali tinham passado. Famílias houve que, sem nada saberem do destino dos presos, os deram como mortos e chegaram a celebrar cerimónias funebres.

"Ali é só deixar de pensar. Porque, se não, morre aqui de pensamentos. É só deixar, pronto. Os que têm vida ficam com vida. Nós aqui estamos já quase mortos." A frase é do angolano Joel Pessoa, preso em 1969 e libertado, com todos os outros presos do campo, em 1 de Maio de 1974.

No 35º aniversário desse dia, a convite do presidente da República de Cabo Verde, Pedro Verona Pires, os sobreviventes reencontraram-se para um Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração do Tarrafal.

"Tarrafal: memórias do Campo da Morte Lenta" resultou desse reencontro. Durante os dias em que os antigos presos voltaram ao Tarrafal, gravámos entrevista após entrevista, registando as suas recordações.

Trinta e dois presos, desde o português Edmundo Pedro, um dos que o estreou, em 1936, aos angolanos e caboverdianos que foram os últimos a deixá-lo, no 1º de Maio de 1974, passando pelos guineenses que, ali chegados em Setembro de 1962, saíram em 1964 uns, em 1969 os restantes. Um guarda, Joaquim Lopes, caboverdiano e convertido ao PAIGC. Uma das raras pessoas que testemunhou a vida no Tarrafal desde a sua abertura ao seu encerramento, Eulália Fernandes de Andrade, mais conhecida por D. Beba.

O documentário faz-se das memórias dos antigos presos, filmados nesse espaço confinado em que viveram durante anos, "fechados como se fôssemos cabras, com um fosso à volta, arame farpado e um muro, com os nosso irmãos, armados, a guardarnos." (Evaristo Miúdo).

Ouvimo-los sentados, quase todos, ao lado da "holandinha" – uma cela de castigo, pouco mais alta que um homem em pé, pouco mais comprida que um homem deitado, pouco mais larga que um homem sentado, com uma pequena janela gradeada.

Ali nos falaram das torturas quando da prisão, das ameaças de morte, dos que não resistiram às condições do campo.

Próxima, atenta, solidária, a objectiva de João Ribeiro dá-nos toda a força destes testemunhos, as caras expressivas contra fundo de cela, as mãos e o corpo que mimam uma cena de tortura, as calças rasgadas pelo chicote e puídas pelo chão prisional, a bengala que resulta de um longo período pendurado por uma corda atando os pulsos elevados acima da cabeça, a planta do campo desenhada num osso de vaca cuidadosamente preservado. A emoção com que homenagearam, no cemitério, os companheiros que ali ficaram. A alegria de se verem lembrados em duas exposições nas celas que tinham ocupado.

A alegria: palavra estranha num filme sobre o Tarrafal. Mas essa é a grande lição destes homens: porque, como diz um deles, o caboverdiano Jaime Scofield, "o mais importante não é que eles nos tenham querido matar lentamente. O mais importante é que nós resistimos."