Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração do Tarrafal:

O Campo de Concentração do Tarrafal foi formalmente instituído pelo regime fascista português, no Tarrafal da Ilha de Santiago, em 23 de Abril de 1936, sob o nome de Colónia Penal de Cabo Verde.

Criado à imagem dos campos de concentração nazis, a “ColóniaPenal” do Tarrafal ou “campo da morte lenta”, nome por que ficou conhecido por aqueles que por lá passaram, visava então aniquilar física e psicologicamente os opositores portugueses à ditadura fascista de Salazar, colocando-os longe dos olhares do Mundo em condições infra-humanas de cativeiro, maus tratos e insalubridade.

Durante os cerca de 18 anos que durou o seu funcionamento, estiveram detidos no campo, arbitrariamente e sem qualquer direito de defesa, um total de mais de 360 prisioneiros antifascistas portugueses. Sob uma vigilância impiedosa e submetidos a um regime cruel de torturas, de fome e de doenças, muitas vidas ficaram irremediavelmente destroçadas e houve cerca de três dezenas de vítimas mortais.

Em Janeiro de 1954, o campo foi encerrado graças à luta das forças antifascistas em Portugal e à pressão internacional, na esteira da vitória aliada na II Guerra Mundial.

Mas, com o despertar das consciências nacionalistas e o dealbar das independências no continente africano, o regime repressivo em Portugal vê-se constrangido a ter de enfrentar não só a resistência interna dos antifascistas portugueses, como também o ímpeto vigoroso dos movimentos de libertação das suas colónias em África.

A luta contra as forças nacionalistas impele o poder colonial fascista a reutilizar o Campo de Concentração do Tarrafal a partir de 1961, com o nome de “Campo de Trabalho de Chão Bom”, destinado desta vez a encerrar no seu isolamento os militantes da luta anticolonial de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Durante 13 anos, até à data do seu encerramento definitivo, no dia 1 de Maio de 1974, esse vergonhoso instrumento de repressão do sistema colonial português manteve presos, nos seus enormes muros, mais de 220 combatentes da luta pela independência das colónias portuguesas.

Nos cerca de 31 anos do seu funcionamento, o Campo de Concentração do Tarrafal encarcerou antifascistas, intelectuais progressistas, patriotas, nacionalistas ou revolucionários anticolonialistas, de Portugal, Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Pagaram com sofrimento e privações desumanas a audácia de querer almejar um melhor futuro para as gerações vindouras. Foram eles que, com o sacrifício de suas vidas desbravaram o caminho para a instauração nos nossos países dos valores de democracia e direitos humanos que hoje guiam as nossas sociedades na construção do progresso e do bem-estar para os seus respectivos povos.

O Campo de Concentração do Tarrafal é, por isso, um marco inesquecível na vida dos nossos países e um monumento à memória histórica dos seus povos que continuam unidos pelo simbolismo dos seus muros, numa mesma dádiva de humanismo, solidariedade e justiça.

Lembrar o Tarrafal é portanto uma necessidade imprescindível e uma responsabilidade incontornável que nos obriga a reafirmar constantemente os valores de justiça, humanismo e solidariedade que alicerçam hoje o caminho partilhado pelos nossos povos, rumo a um futuro que queremos ser mais próspero e feliz para todos.

É com esta motivação que a Fundação Amilcar Cabral promove, de 29 de Abril a 1 de Maio de 2009, um Simposio Internacional sobre o Campo de Concentração do Tarrafal, marcando, assim, o 35.º aniversário do encerramento definitivo dessa instituição da ditadura fascista.

Com este evento, a Fundação quer contribuir para valorizar o monumento que, pela sua simbologia, representa um dos patrimónios mais emblemáticos da história da luta comum dos povos de Portugal, Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde contra a repressão da ditadura fascista, homenageando as suas vítimas mas aproveitando, simultaneamente, essa ocasião para criar um espaço de reflexão sobre os ensinamentos legados e o papel que devem ter na formação das gerações vindouras.

Com este Simpósio a Fundação Amílcar Cabral pretende reunir antigos presos políticos do Tarrafal, provenientes dos diferentes países, reconhecidas personalidades, políticos, intelectuais e estudiosos, visando alcançar os seguintes objectivos principais:

Realizar a recolha de testemunhos e documentos relativos à existência e funcionamento do Presídio do Tarrafal;

Apresentar e discutir um projecto museológico transnacional para o futuro desse monumento histórico;

Realizar uma jornada de reflexão e debate em torno do legado histórico, de valores e ideais, humanistas e inspiradores para as gerações vindouras.

Praia, Maio de 2008
A Comissão Organizadora
Programa:

28-04-2009

Sessão de Abertura

  • Álvaro Dantas Tavares, Chefe da Casa Civil da Presidência da República de Cabo Verde
  • Manuel Veiga, Ministro da Cultura de Cabo Verde
  • Rosa Cruz e Silva, Ministra da Cultura de Angola
  • Aristides Ocante da Silva, Ministro da Cultura da Guiné-Bissau
  • José Maria Neves, Primeiro-Ministro de Cabo Verde

29-04-2009 - Manhã

Painel "A Geração da Utopia e o Dever de Memória", moderado por Rosa Cruz e Silva, Ministra da Cultura de Angola

  • Mário Fonseca, poeta
  • Aurélio Santos, dirigente da URAP-União de Antifascistas Portugueses
  • Raimundo Narciso, Presidente da Associação-Movimento Cívico "Não Apaguem a Memória"
  • João Pedro Lourenço, director do Museu da Escravatura de Angola
  • Julião Soares de Sousa, historiador
  • Carlos Tavares, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal
  • Nélida Brito, historiadora
  • Fernando Rosas, historiador

29-04-2009 - Tarde

Painel "Os ideais e os princípios", moderado por Corsino Fortes, Presidente da Fundação Amílcar Cabral

  • Luzolo Kiala, historiador
  • Luís Fonseca, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal
  • Karamó Sanhá, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal
  • Jaime Schofied, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal
  • Aurora Ferreira, historiadora
  • Mário Soares, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal
  • Justino Pinto de Andrade, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal

30-04-2009 - Manhã

Painel "Cidadania e Direitos Humanos", moderado por Aristides Ocante da Silva, Ministro Cultura da Guiné-Bissau

  • Onésimo Silveira, embaixador
  • Edmundo Pedro, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal
  • Eulália Freire "Nha Beba"
  • Manuel Pedro Pacavira, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal
  • Fernando Tavares, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal
  • João Pinto, jurista
  • Carlos Cardoso, sociólogo
  • Victor Kajibanga, sociólogo
  • Paulo Carvalho, sociólogo
  • Domingos Abrantes, resistente anti-fascista
  • Dany Landim, professora do História
  • Irene Pimentel, historiadora

30-04-2009 - Tarde

Painel "Que futuro para o Campo do Tarrafal", moderado por Manuel Veiga, Ministro da Cultura de Cabo Verde

  • Pedro Martins, antigo preso do Campo de Concentração do Tarrafal
  • José Vicente Lopes, jornalista
  • Antoninho Baptista "Hamar", director do Arquivo & Museu da Resistência Timorense
  • Alfredo Caldeira, director do Arquivo & Biblioteca da Fundação Mário Soares
  • Carlos Carvalho, presidente do Instituto de Investigação e Património Cultural de Cabo Verde

01-05-2009

Sessão de Encerramento

  • Corsino Fortes, Presidente da Fundação Amílcar Cabral
  • Manuel Veiga, Ministro da Cultura de Cabo Verde
  • Justino Pinto de Andrade - Leitura das Conclusões do Simpósio
  • Mário Soares, ex-Presidente da República de Portugal
  • Pedro Verona Pires, Presidente da República de Cabo Verde