Prefácio

A distância de trinta e cinco anos sobre a data do encerramento do Campo de Concentração do Tarrafal, permite-nos esboçar, com algum rigor, uma análise, tanto de como foram ou não consumados os objectivos que estiveram na origem da sua criação, assim como o seu significado e as lições a serem tiradas desse período da História comum de vários países.

O presídio foi planeado para servir de isolamento e desterro daqueles que se opunham à ditadura fascista, seja em Portugal, numa primeira fase, ou nas então colónias africanas, com o eclodir das lutas de libertação nacional.

Os arquitectos do “campo de morte lenta” pretendiam aniquilar física e psicologicamente aqueles que ousassem desafiar o anacrónico sistema político então vigente. É certo que, muitos prisioneiros sucumbiram aos maus tratos e às condições infra-humanas de detenção, sendo essa a factura mais elevada a pagar, ou seja, com a própria vida. No entanto, não há sinais de que tenham fraquejado nos seus ideais, nem mesmo nos momentos mais difíceis que antecederam à sua morte. E os que conseguiram sobreviver a todo esse rosário de sevícias e de sofrimento, durante vários anos, deram provas de invulgar coragem, espírito de luta, de resistência e de dedicação às causas que generosamente abraçaram.

Verifica-se assim que o objectivo que esteve na origem da criação do campo falhou. Nem as piores condições de um regime prisional desumano e a violência terão conseguido quebrar o ânimo e a motivação desses combatentes da liberdade. Tornou-se evidente a impossibilidade de pôr amarras ao pensamento e à determinação na luta por causas tão nobres como aquelas que mobilizaram esses jovens durante a longa noite da ditadura fascista e colonial.

Nós, cabo-verdianos, temos o dever acrescido de ter um melhor conhecimento desse campo de concentração, construído no nosso território e por onde passaram vários filhos deste país. Esse conhecimento permitir-nos-ia entender melhor a nossa identidade, nomeadamente a nossa capacidade de resistência a situações das mais adversas.

Reputo de primordial importância para a construção do futuro, o dever que cada povo tem de conhecer a sua história. É esse conhecimento de si próprio, da sua identidade, que lhe dá uma projecção clara do caminho para o futuro.

Entendo que se o Campo de Concentração do Tarrafal toca-nos particularmente, ele é igualmente um monumento à memória histórica, não só dos países cujos filhos por lá passaram, mas de toda a humanidade. O desconhecimento ou o apagamento da memória desse período crítico da História comum desses povos pode propiciar alguns fenómenos indesejáveis para os dias de hoje. Um que é universalmente válido, é a forma como se dá combate ao adversário político, de que deve estar definitivamente banida a repressão, a tortura ou qualquer outra forma de violência, assim como se deve rejeitar todos os sistemas políticos que recorram a esses métodos de actuação.

Por outro lado, alimentar uma visão distorcida da História ou uma memória selectiva dos acontecimentos, pode revelar-se um caminho perigoso e de consequências trágicas para o futuro colectivo. Se no passado, o Tarrafal não venceu, é nosso dever tudo fazer para que, em definitivo, todos esses episódios não possam jamais repetir-se. Nem nos nossos dias, nem nos tempos vindouros.

Finalmente, espero que a realização do Simpósio Internacional sobre o Campo de Concentração do Tarrafal seja, para além de uma homenagem à luta pelas causas da liberdade e da dignidade humanas, um apelo à colocação do dever de preservação dos sítios históricos e de memória dos nossos países no centro das nossas preocupações.

Praia, Abril de 2009.
Pedro Pires
Presidente da República de Cabo Verde