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Biografias



Ngungunhane, Gungunhana (1850-1906)

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Ngungunhane, Gungunhana (1850-1906)
Ngungunhane ou Gungunhana como era conhecido pelos portugueses, nasceu cerca de 1850 no Império de Gaza, em Moçambique. O seu avô Sochangane (Manukuse) fizera a ocupação de um vasto território entre o rio Incomáti e a margem esquerda do Zambeze e do Oceano Índico até ao curso superior do rio Save, controlando uma população de mais de 500.000 habitantes. Pertencia aos nguni (vátuas), um dos ramos dos zulus, tendo a sua aldeia sagrada em Chaimite. A chegada dos nguni a esses territórios foi acompanhada do domínio de outros povos que já lá existiam, como os chopes, os tsongas, os vandaus e os bitongas. Depois da morte de Manukuse (1858), a guerra civil que opôs os dois herdeiros é ganha, com o apoio de autoridades portuguesas, pelo pai de Ngungunhane, Muzila. A sua sucessão, em 1884, foi igualmente problemática, conseguindo ascender ao poder Mudungazi (que mudou o nome para Ngungunhane), conhecido como o 'Leão de Gaza', que seria o senhor do segundo maior império de África no século XIX. A localização deste império tornava-o apetecível para as potências coloniais, regionais e para as companhias coloniais. Ngungunhane sobe ao poder na conjuntura da Conferência de Berlim e do renovado interesse das potências pelo continente africano. Portugal busca nessa época consolidar a sua precária ocupação colonial, nomeadamente em Moçambique, assinando para tal um tratado de amizade e vassalagem com Ngungunhane, em 1885. Aproveitando as rivalidades das potências europeias, Ngungunhane procura simultaneamente o apoio inglês. Na redifinição dos territórios africanos depois do Ultimatum, grande parte do império de Gaza fica no território de Moçambique. Em Agosto de 1894, os tsongas revoltam-se contra a autoridade colonial e colocam-se sob a protecção de Ngungunhane. Este recusa-se a entregar os chefes rebeldes aos portugueses, o que implicaria a sua submissão. Em 1895, tropas e colonos portugueses, sob a direcção do Comissário Régio António Enes, envolvem-se em confrontos com os ngunis, que se saldam numa sangrenta derrota destes últimos. Depois da derrota de Coolela, a 7 de Novembro de 1895, e de Mandlakasi, a 11 de Novembro, Ngungunhane refugia-se na aldeia sagrada de Chaimite. O major de cavalaria Mouzinho de Albuquerque, recém nomeado governador do distrito militar de Gaza, dirige a sua coluna para Chaimite, aprisionando Ngungunhane. No entanto, nem mesmo esta vitória da autoridade colonial fez cessar a resistência em Gaza. A repressão portuguesa é duríssima. Em 1896 Ngungunhane, com algumas das suas mulheres e um filho, um tio e dois régulos, chega a Lisboa, onde é exposto à curiosidade popular. Atravessam Lisboa numa jaula, ficando em exibição no Jardim Botânico de Belém. Em Junho de 1896 foram enviados para a ilha Terceira nos Açores. Ngungunhane viveria onze anos no cativeiro açoriano, no forte de S. João Baptista. Tornado curiosidade local, é-lhe permitido caçar, faz cestos e aprende a ler e a escrever. É baptizado com o nome de Reinaldo Frederico Gungunhana.. Morreu a 23 de Dezembro de 1906, 'baptizado, alfabetizado e alcólico' (PÉLISSIER, René). Mas só morrerá cinco anos depois do suicídio de Mouzinho de Albuquerque. Em 15 de Junho de 1985, por ocasião do décimo aniversário da independência de Moçambique, os restos mortais do antigo imperador de Gaza são entregues pelas autoridades portuguesas ao novo país africano, que organiza as exéquias solenes devidas ao seu herói nacional.

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