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MADEIRA, Lina Maria Gonçalves Alves
Alberto da Veiga Simões: esboço de uma biografia política
 (...) a história também é feita, inegavelmente, por grandes homens. Devido a questões de personalidade, formação, conduta ou mera casualidade, salientaram-se face aos seus contemporâneos. Nem sempre por merecimento próprio, o certo é que alcançaram a notoriedade negada à maioria. O historiador não se deve ocupar exclusivamente deles. Porém, errado era, também, não prestar-lhes atenção. Sem cair nos «pecados» da «velha biografia», tantas vezes meramente apologética ou condenatória, e por isso mesmo viciada, faz sentido escrever a vida de alguém, tanto quanto possível de forma isenta, sem se assumir a postura de advogado de defesa ou de acusação. Assim o postulam os cultores da «nova biografia»: deixando de se circunscrever à existência de uma determinada figura, mais ou menos relevante, isolada da envolvência histórico-social que lhe serviu de esteio, procuram integrá-la no tempo e no espaço em que se notabilizou, explicitando as interacções registadas entre eles.
Alberto da Veiga Simões (Arganil, 1888 - Paris, 1954) foi, não obstante o ostracismo a que tem sido votado, um dos portugueses que marcaram, indelevelmente, as primeiras décadas do século XX. Não querendo alcandorá-lo ao estatuto de personagem principal da cena nacional e, em alguns momentos, internacional, não podemos remetê-lo para o lugar de mero figurante. Marcado pela época em que viveu, não deixou de lhe imprimir, também, a sua marca. Enquanto escritor, jornalista, político, diplomata e historiador, deixou-nos um legado que se impõe redescobrir.
O presente trabalho é, acima de tudo, um contributo para essa redescoberta. Um contributo muito limitado, prejudicado pelas limitações de quem o escreveu. Limitado porque superficial. Prejudicado pelas limitações da sua autora quer em termos de formação, quer em termos de fontes. Uma vida demasiado cheia não se compadece com um trabalho académico tão reduzido. Não podendo, portanto, designá-lo como uma biografia, designámo-lo como um esboço, predominantemente político. Uma personalidade extraordinariamente ecléctica tornava-se inevitavelmente difícil para alguém como nós, cuja formação não abrange a mesma versatilidade de conhecimentos. Uma carreira diplomática tão rica, com testemunhos em capitais tão diversas como Oslo, Praga, Viena, Budapeste ou Berlim, não se pode apreender cabalmente através de uma investigação historiográfica circunscrita aos arquivos do território nacional.
(...) O produto final que agora apresentamos poderá valer pela novidade de muitas das
revelações feitas e (...) por algumas pistas de investigação suscitadas. A parte inovadora corresponde à vida académica dos primeiros anos de juventude de Veiga Simões, bem assim como à sua passagem pelo jornalismo, actividade política e carreira diplomática. A vertente literária, a produção historiográfica e a estada em Berlim mereciam, inquestionavelmente, uma atenção mais cuidada (...).
Ao longo das páginas que se seguem, iremos acompanhar a trajectória de uma vida, ao menos nas suas linhas essenciais: desempenho académico, produção literária, trabalho jornalístico, actividade política e carreira diplomática. Mas, porque essa vida esteve condicionada e condicionou, também, alguns dos momentos da história nacional, e mesmo internacional, teremos a preocupação de contextualizá-la minimamente. Ao menos no plano político. Faremos, assim, pequenos enquadramentos históricos. Para não perdermos de vista a personagem central desta "trama", não mais do que isso.
Optámos pela actualização ortográfica das citações e dos documentos em anexo. Seguimos uma linha cronológica e narrativa — não regredindo, todavia, à cronologia e à narrativa de Langlois e Seignobos. Porque a história tem muitas escritas. Porque uma das riquezas da história reside, precisamente, na diversidade das suas escritas.


 

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