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TRINDADE, Luís
O Espírito do Diabo: discursos e posições intelectuais no semanário "O Diabo" (1934 - 1940)
 O Diabo, célebre "semanário de literatura e crítica" dos anos trinta (...), ligou-se intimamente
à história do neo-realismo, como um dos principais periódicos na sua génese. A memória que até nós chegou (e que em grande parte determinou a escolha) está fortemente mitificada pela esquerda portuguesa resistente ao Estado Novo. Mas apesar desta memória, partimos desde logo com um dado seguro: o de que este trabalho não se poderia limitar à análise do jornal como órgão fundador de uma corrente literária. Como tal tem sido evocado, quase exclusivamente, nos estudos literários ou nas memórias de participantes no movimento neo-realista.
(...)
Perante a multiplicidade de abordagens (...) de análises de que O Diabo poderia ser o pretexto, foi-se impondo, gradualmente, a necessidade de escolher uma perspectiva, e, também gradualmente, tornou-se óbvia a opção monográfica. Por outras palavras, sentimos a necessidade de renunciar à tentação de ilustrar, a partir de O Diabo, o universo em que o jornal se inseriu (e de que foi um elemento entre outros), para descobrir a evolução própria dos conteúdos, no seu conjunto, no interior do semanário.
Tratou-se, se assim nos podemos exprimir, de uma aproximação centrípeta. Opção que procurava evitar o risco de cometermos o pecado de avaliar o geral em função de um objecto particular. Evitá-lo não excluía, no entanto, que procurássemos demonstrar que O Diabo foi um elemento representativo do meio em que existiu e dos problemas do seu tempo.
A esse universo em que se moveu o jornal e os intelectuais que nele colaboraram chamámos, então, meio cultural. Trata-se, naturalmente, de um meio cultural localizado em Lisboa no seu contexto dos anos trinta (...).
O desígnio de ilustrar o papel de O Diabo determinou, por sua vez, a realização de uma pesquisa com duas leituras simultâneas e em permanente confronto. Por um lado, o levantamento dos protagonistas e dos grandes temas que.fizeram a história do meio cultural. Consultar os jornais e as revistas que fundaram e em que escreveram, conhecer os combates que travaram (e os adversários em confronto com os quais se definiram mais claramente), as memórias ou a memória colectiva que convocaram, o imaginário fíccional que criaram e que povoou as suas leituras, mas antes de mais, perceber a clareza com que viveram o estatuto de intelectuais e também, no caso de O Diabo, de homens de esquerda.
Por outro lado, uma leitura que contemplasse toda a diversidade do jornal, pelo que teria de ser integral, e que não se perdesse na enorme quantidade de informação que nos facultou, pelo que teria de ser sistematizada e classificada. A solução para esta necessidade foi encontrada na organização de dois índices, um temático e outro onomástico. Estes instrumentos revelaram-se fundamentais para avaliar com precisão os pesos dos diferentes constituintes dos conteúdos do jornal (a crítica, a intervenção política, a divulgação científica e ideológica, a criação literária) e verificar a sua evolução.
Mas não só: a discriminação dos artigos pelos seus autores foi um contributo valioso para tirar um retrato da intelectualidade portuguesa da época. Como resultado, descobrimos em O Diabo os grandes temas e os nomes mais significativos, como ao longo do texto se verá, aqueles que o confronto com a nossa pesquisa no exterior do jornal também revelou: os grupos de intelectuais herdeiros do ideário da primeira República e das franjas radicais que, no anterior regime, tinham combatido mais à esquerda; as grandes figuras tutelares; os jovens que vão aparecendo no espaço público intelectual, portadores já da novidade marxista. Mas também o sintoma de anos convulsivos; a necessidade de encontrar outras respostas, tanto nas obras como nos comportamentos; a emergência de novas ideologias e propostas estéticas.
(...) Na primeira parte, "O Diabo nos anos trinta", procuraremos, não só analisar a estrutura e capacidade de comunicação do semanário e os vários grupos de colaboradores e suas características fundamentais, como descrever o meio em que jornal e colaboradores se inseriram. A história conta-se aqui, sobretudo, pelas heranças que se cultivaram e pelas resistências ou adesões ao advento da modernidade. Mas também auscultando a capacidade de ousadia nas posições e leituras, assim como, o que é mais importante, as insuficiências culturais, que não podem ter deixado de condicionar a forma como foi recebida, compreendida e aceite qualquer novidade.
Depois da descrição de um contexto, a segunda parte, "O Diabo e o futuro", narrará o processo de penetração do marxismo no semanário, que foi também advento geracional. Assim, a visão da guerra, a afirmação da juventude, a redefinição do papel do intelectual e a evolução dos discursos ideológicos e da criação literária, são, a um tempo, uma sequência dos tais níveis de leitura que se condicionaram mutuamente, e, no interior de cada um, uma forma particular de materialização do fenómeno.
No final procuraremos então atribuir o que pode ter significado, no meio cultural português, a recepção do marxismo. Trata-se, no fundo, de verificar a sua capacidade de se instituir como cultura política. Atribuição necessariamente especulativa, porque a montante a juzante de O Diabo, isto é, no meio cultural que chega aos anos trinta e no futuro das décadas de quarenta e de cinquenta, os pesos do arcaísmo intelectual e a capacidade de impacto da nova ideologia, respectivamente, ainda não estão suficientemente determinados pela balança da historiografia portuguesa.
 

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