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COSTA, Fernando Carlos das Dores
Portugal e a Guerra Anglo-Boer (1899-1902): política externa e opinião pública
INTRODUÇÃO

O trabalho realizado

O nosso estudo tem três grandes capítulos temáticos, cuja interacção nos permite uma compreensão mais clara dos acontecimentos que envolveram esta problemática. Começando pelo primeiro, podemos desde já afirmar que sem ele não seria possível entender os motivos que desencadearam a guerra anglo-boer e que influenciaram o comportamento português nesse conflito.

l. / 1.1. Neste capítulo é nosso objectivo explicar que a guerra anglo-boer acabou por ser o "epílogo lógico" de quase um século de tensão entre os dois povos. Na realidade, os problemas entre boers e ingleses remontam à fase de implantação da Inglaterra na região do Cabo (1795). Nesse sentido, tentaremos historiar os momentos mais importantes desse confronto, de forma a que se perceba a sua influência no desencadear do conflito em 1899.

l. / 1.2. Em primeiro lugar, convém salientar que o objectivo deste capítulo não é fazer a história das grandes batalhas da guerra anglo-boer, Sobre elas já escreveram alguns reputados historiadores ingleses. Procuraremos, nessas páginas, dar a conhecer os diferentes momentos que caracterizaram a evolução do conflito, A uma primeira fase em que os boers estiveram em vantagem, sucederam-se mais duas: uma, que se caracterizou pela recuperação e ofensiva dos exércitos ingleses, e outra, que coincidiu com a adopção da guerra de guerrilhas por parte dos boers. Ainda dentro deste capítulo procuraremos enunciar algumas das situações, provocadas pelo desenrolar do conflito, na fronteira entre o Transval e Moçambique.

l. /1.3. À semelhança do que acabámos de referir para o capítulo 1.1., este ponto tem também como objectivo dar a conhecer as grandes etapas e os consequentes comportamentos diplomáticos que caracterizaram a política externa portuguesa durante cerca de oitenta anos. A resposta dada por Portugal às várias crises e embaraços explica em parte - em nosso entender - a atitude assumida por Lisboa durante as hostilidades. É um facto que o país reagiu em conformidade com os condicionalismos específicos da época, mas não deixa também de ser verdade que muitas das hesitações e receios da diplomacia portuguesa encontram a sua explicação nos acontecimentos do passado. Daí que o capítulo seja composto por uma sucessão de casos diplomáticos que, em nosso entender, condicionaram, em grande parte, a orientação da política externa de Portugal,

2. / 2.1. Ao entrarmos na análise do processo diplomático, que envolveu Portugal na questão sul africana, a nossa primeira preocupação é tentar caracterizar os condicionalismos que estiveram na base da assinatura do acordo anglo-germânico de 1898. De seguida, procuraremos demonstrar qual a influência que esta convenção teve nas relações luso-britânicas. Por outro lado, tentaremos analisar em que medida a sua existência condicionou o comportamento da política externa portuguesa e as negociações com os credores externos, que na altura decorriam em Paris.

2. / 2.2. / 2.2.1. A declaração de Windsor, assinada em Londres pelo marquês de Soveral e por Lord Salisbury é uma das peças fundamentais deste "puzzle" diplomático. Num primeiro momento, procuraremos explicar a evolução do processo entre as duas chancelarias, assinalando, sempre que possível, os seus avanços e recuos. Analisada a fase que conduziu à conclusão do acordo, será a altura propícia para tentarmos demonstrar o que nele ficou estabelecido, e, em que medida, essas cláusulas condicionaram o futuro comportamento dos signatários no conflito anglo-transvaliano. Paralelamente, será também nosso objectivo explicar, em que medida este acordo inviabilizou a convenção anglo-germânica de 1898, e qual a política externa africana adoptada pela Alemanha nos anos seguintes à assinatura da declaração de Windsor. Não podíamos terminar este ponto sem fazer também referência aos actos diplomáticos que, posteriormente, contribuíram decisivamente para a reafirmação pública da aliança luso-britânica.

2. / 2.2. / 2.2.2. A análise do procedimento diplomático que levou à passagem de tropas pelo porto moçambicano da Beira será o objectivo central deste capítulo. Quais os motivos do pedido inglês? Em que tratado se fundamentou? Que resposta obteve do governo português? Quais os problemas logísticos que levantou? Que reacções internacionais suscitou? São as cinco perguntas fundamentais a que tentaremos dar resposta no nosso estudo.

2. / 2.2. / 2.2.3. Este capitulo está intimamente ligado a uma das cláusulas da declaração de Windsor assinada em 1899. Na realidade, Portugal tinha-se comprometido a não deixar passar contrabando de guerra por Lourenço Marques para o Transval, assim que o conflito rebentasse. Nesse sentido, procuraremos fundamentar as dificuldades sentidas por Lisboa para exercer uma fiscalização isenta e eficaz no porto de Lourenço Marques. Simultaneamente, tentaremos demonstrar em que medida houve tentativas de ingerência e sabotagem desse controle, levadas a cabo quer pela Grã-Bretanha, quer pelo Transval, respectivamente. Por outro lado, tentaremos recensear as dificuldades económicas sentidas em Lourenço Marques, motivadas directamente pelo embargo marítimo e terrestre, que se fazia sentir desde o início das hostilidades. Fazendo já a ponte para o próximo capítulo procuraremos enunciar as razões apontadas pela diplomacia portuguesa em Londres, no sentido de se obter um Modus Vivendi que regulasse as trocas comerciais na região.

2. / 2.2. / 2.2.4. Pegando nas questões económicas referidas no ponto anterior, analisaremos, nas primeiras páginas deste capítulo, a evolução das negociações luso-britânicas sobre o assunto. Uma vez assinado o Modus Vivendi entre a província de Moçambique e o Transval, será a altura de nos debruçarmos sobre o seu conteúdo. Por último, tentaremos enumerar as críticas e as alterações que o seu texto inicial suscitou em Moçambique e nas colónias inglesas do Cabo e do Natal.

3. / 3.1. As primeiras linhas deste capítulo serão dedicadas à separação conceptual entre imprensa e opinião pública. Num segundo momento, procuraremos demonstrar como é que a diplomacia portuguesa e inglesa viam a actuação dos jornais portugueses. Por fim, seleccionámos dos diversos jornais analisados, os temas que, em nossa opinião, estavam mais directamente ligados com as questões diplomáticas tratadas no segundo capítulo deste trabalho. A questão da neutralidade portuguesa na guerra anglo-boer; a autorização de trânsito de armas e soldados pela Beira; as questões do contrabando de guerra em Moçambique e a situação económica de Lourenço Marques durante o estado de beligerância, serão os pontos de partida da nossa análise. Paralelamente procuraremos identificar as clivagens existentes, não só entre os vários jornais, mas também entre estes e a diplomacia portuguesa. As notícias sobre a evolução das movimentações militares no conflito, dado o seu carácter objectivo, não deixaram de ser referidas, pese embora o seu peso relativo nas questões de fundo que se debatiam nesta altura.

3. / 3.2. Neste segundo ponto da terceira parte começaremos por enumerar as interpelações feitas pelos partidos da oposição ao governo de Luciano de Castro, passando, de seguida, à análise das respostas dadas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros do gabinete progressista. Ainda relacionado com a questão anterior, tentaremos explicar os motivos que influenciaram a resposta governamental. Uma vez mais procuraremos provar que as diferenças existentes entre a política externa do governo e a posição assumida pelos partidos da oposição em Portugal, eram bem visíveis.



1. O texto inicial sofreu alterações por parte do autor, tendo em conta as sugestões apresentadas pelo júri e a publicação em livro;

2. O livro contém também novos sub-capítulos (relacionados com "A passagem das tropas inglesas pela Beira", ponto 2.2.2.), após investigação posterior à apresentação da tese, em Londres (fundo War Office); essa investigação teve a ver com a questão jurídica e do Direito Internacional Marítimo, bem como informações logísticas sobre as facilidades concedidas por Portugal à passagem das tropas inglesas pelo porto da Beira.


 

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