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SAMARA, Maria Alice Dias de Albergaria
Sob o signo da Guerra: "verdes" e "vermelhos" no conturbado ano de 1918
Introdução

No panorama da historiografia do século XX português, a I.ª República tem sido um campo de estudo menos trabalhado nestes últimos anos, sobretudo quando comparado com o do Estado Novo, apesar de existirem obras de referência e estudos históricos de valor inegável. Aliás, foram mesmo testemunhas e protagonistas deste período que iniciaram a escrita de textos interpretativos, apologéticos ou críticos. Coexistem varias feituras e visões, todas de grande utilidade para o historiador. A Primeira Guerra Mundial e a condução da mesma durante o ano de '18 e o sidonismo em geral, foram objecto de vários textos, publicados logo a partir de '19, nos quais se esgrimem argumentos e, na maior parte das vezes, se fazem acusações. Foram, desde então, assuntos polémicos que separaram as águas e dividiram opiniões.
Não sendo uma área "desconhecida", há ainda muitas problemáticas a desbravar e questões a rescrever, crendo que a História de um período nunca está acabada e fechada. A I.ª República é um campo de investigação estimulante, permitindo novos olhares para "velhos" problemas e a exploração de outros, menos conhecidos.
De entre os autores que escreveram sobre este assunto devemos salientar, não sendo lista exaustiva, Oliveira Marques, Veríssimo Serrão, Victor de Sá, Vasco Pulido Valente, Manuel Villaverde Cabral, Fernando Catroga, João Medina, Rui Ramos, António José Telo, César de Qliveira, Miriam Halpern Pereira,, António Reis, João Bonifácio Serra, Nuno Severiano Teixeira, António Costa Pinto, João Freire, José Pacheco Pereira, Fernando Farelo Lopes, Douglas Wheller, Richard Robinson, Hipólito de Ia Torre Gomez, Filipe Ribeiro de Meneses, Luís Manuel Alves de Fraga, Armando Malheiro da Silva, a par de alguns trabalhos de jovens investigadores, no âmbito de mestrados. A dissertação que apresento, de todos estes estudos é devedora, mas não posso deixar de referir a obra de António José Telo, O Sidonismo e o movimento operário português. Luta de classes em Portugal, 1917-1919, por, antes de mais, me ter despertado para o tema, sendo, igualmente, uma referência incontornável. De igual modo, os diferentes estudos sobre a participação de Portugal na guerra (citados no texto e referidos na bibliografia) foram essenciais para este trabalho.
Escolhido que estava o tema, "os verdes e os vermelhos no conturbado ano de 1918", o mesmo é dizer, o sidonismo e o movimento operário, a análise de um progressivo confronto que culmina na greve geral de Novembro, tornava-se necessário encontrar um enquadramento mais geral para o estudo deste período "sob o signo da guerra".
Assim, a primeira parte deste trabalho tem como objectivo investigar as problemáticas relacionadas com a questão da participação portuguesa na I Guerra Mundial. Em primeiro lugar, surpreender a opção intervencionista radical, gizada ainda antes do despoletar do conflito, identificando os protagonistas, as suas linhas de acção e o "braço de ferro" que travaram interna e internacionalmente para conseguir o seu desiderato. A entrada na contenda abriu profundas clivagens na sociedade portuguesa de então, desde logo entre guerristas e anti-guerristas. Tornava-se necessário definir o papel dos diferentes agentes políticos e sociais, especialmente os sindicalistas, que têm um papel central neste trabalho. Mas o problema político, merecedor de atenção, não deixa de necessitar do estudo da frente interna, i. é., do problema económico e social, exponencialmente agudizado durante este período, para se ter a ideia da profunda crise vivida durante estes anos. Este capítulo da tese pretende, essencialmente, descrever as condições de vida da população e descrever as políticas executadas para tentar resolver a situação. Mais uma vez, é preciso conhecer as lutas de trabalhadores e sindicalistas, espontâneas e as organizadas, face à "questão das subsistências". E aqui deparamos com outro problema: como se criara, organizara e funcionara a União Operária Nacional, i.é., a organização dos trabalhadores, a sua "central de sindicatos". Recém criada no início da guerra, compreender a sua acção (ou a falta dela), era a peça final para compor este quadro. Chegamos, assim, ao fim desse "ano terrível" de 1917.
A segunda parte da tese, analisa o ano de '18, numa dupla perspectiva evolutiva. Por um lado, o combate central da União Operária Nacional, das primeiras desilusões, ao rompimento definitivo com o novo poder e a greve geral. Descreve-se o dia a dia do movimento de Novembro em Lisboa bem como uma visão nacional. Finalmente, responde-se a duas perguntas: era esta uma greve revolucionária? O que significou o seu malogro e como é que a organização operária sobreviveu a ela? Por outro, a evolução do sidonismo, da sua genealogia ao seu final trágico, dando particular atenção à sua arquitectura de defesa e atracção, ao seu "discurso social" e ao fortalecimento da ideia da necessidade de ordem e de constituição de um "bloco conservador" capaz de suster os avanços "vermelhos". Ao falar de Sidónio Pais, temos de estudar também os factores de inovação do sidonismo, que tornaram este regime uma experiência política única na I.ª República.
As principais questões abordadas nesta tese são, assim, de natureza política e social, muito embora se faça uma breve digressão pelos problemas económicos. Para tal foi construída uma narrativa que parte de uma questão mais geral - a crise de guerra -para depois se centrar no ano de '18. Este enfoque resulta mais das minhas preferências do que da defesa do primado destes problemas em detrimento de outros.
 

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