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TCHEN, Adelaide Ginga
A Aventura Surrealista: da explosão à extinção de um movimento (ou não)
Introdução
Tratar o surrealismo numa dissertação de mestrado em história é algo aparentemente paradoxal se se tiver em conta o pensamento de Cesariny: "Curioso é saber que não se fará a história do movimento surrealista em Portugal. Posto entre dois impossíveis, o do início e o do fim (...) E que não há assim tanto a historiar, corrijo: o que há a historiar não pode com tanto -ou cabe mal, se cabe, num movimento cuja estrutura se ergue, precisamente, contra a História, e nessa mesma sorte contra si mesma (pensa-se)". Ideia corroborada por Natália Correia ao afirmar que, "a história é o ponto de vista que menos convém aplicar à unidade poética do surrealismo, uma ordem de pensamento "totalitário", inconciliável com o relativismo histórico".
Aparentemente, tais asserções surgem como um embaraço ao presente trabalho; porém, porque em tudo verdadeiras, elas apenas evidenciam os limites e aclaram o objectivo do mesmo. Não tendo a pretensão de tratar O Surrealismo em Portugal, visto que O remete para uma efectiva "unidade poética" cuja totalidade ultrapassa a abordagem histórica, ainda que exista por parte desta uma ampla abertura à interdisciplinariedade, o que proponho é a incursão no Surrealismo enquanto potencial ou real movimento situado no espaço e no tempo. Nas páginas que seguem, procurarei auscultar o curso de uma aventura intelectual, rica em vicissitudes históricas, entrelaçada espacialmente nas diversidades do campo cultural, localizada temporalmente num período de latente conotação política, aflorando as suas relações com o domínio social e das mentalidades.
Todavia, precisamente por motivos de espaço e tempo impostos ao presente trabalho, assumem-se limites de abordagem. Antes de mais, a ausência de uma profundidade teórica nomeadamente em aspectos doutrinários, mesmo filosóficos, que fossem além da auscultação efectuada ao domínio de determinados pensamentos colectivos ou individuais e permitissem definir uma ideação distinta em termos originais. Ausência, também, de prescrutações em terreno sociológico que, mais pormenorizadamente, radiografassem percursos biográficos e inter-relações pessoais e de grupos, a fim de esclarecer a profundidade de certos equívocos e reminiscências.
Outra limitação assumida é a do manuseamento de fontes literárias e artísticas, uma vez que qualquer análise crítica ultrapassaria o âmbito do próprio trabalho, penetrando no domínio de estudos literários e artísticos. Ao aflorar determinadas obras, procura salientar-se, não o seu conteúdo estético ou configurações formais, mas a mensagem com implicações na afirmação de uma postura subversiva em termos sociais, culturais, políticos ou mentais.
Por outro lado, a estrutura de um movimento que, como diz Cesariny, "se ergue, precisamente, contra a História, e nessa mesma sorte contra si mesma (pensa-se)", dificulta o avanço de um trabalho que se pretende sério e rigoroso, pois são inúmeras as clareiras temporais, as omissões entre determinadas conjunções. A despeito da multiplicidade de acontecimentos que envolveram o surrealismo em Portugal, existem numerosas lacunas no entretecimento dos mesmos. De qualquer forma, tentou-se um encadeamento dos factos e o aprofundamento destes, avançando na procura de dados novos que permitam esclarecer certas questões.
O surrealismo foi, de facto, um movimento que, ao sobrepor o ser ao estar, ao privilegiar o momento recusando preocupações mediatas, relegou o carácter de posteridade de certas criações em prejuízo de um testemunho. Ao inscrever-se sobretudo na historicidade (o aqui e agora), acabou por dificultar uma redimensão historiográfica. Muita da informação perdeu-se, outra parte acreditamos que continua por revelar, retida na memória ou nos documentos em posse dos protagonistas que são prova viva dessa aventura.
Este trabalho de história cultural contextualizado politicamente na sua época, assenta do ponto de vista metodológico nas fontes da maioria dos protagonistas. Face a um infindo número de livros e artigos dos mais variados autores sobre o surrealismo, do que resulta uma variedade crítica de opiniões, por vezes facciosa e tendenciosa, privilegiaram-se as fontes documentais. Em particular, os escritos da época, ou posteriores, dos próprios intervenientes no movimento surrealista, nomeadamente artigos em periódicos, panfletos, comunicados, entrevistas, livros de carácter histórico (embora por vezes sem tal reclamação), etc.; os catálogos das exposições conjuntas e algumas obras artísticas; os registos da imprensa da época e também dos arquivos da PIDE/DGS porquanto observatório central de comportamentos políticos.
E, principalmente, pretendeu dar-se voz aos próprios intervenientes através de alguns depoimentos orais e escritos, e da correspondência entre os elementos em análise, disponível nos espólios da Biblioteca Nacional de Lisboa e nas antologias realizadas por Mário Cesariny. A correspondência ressalta, aliás, como fonte documental de extrema importância visto que, não tendo à priori o intuito de exposição pública, encerra uma autenticidade de expressão e um carácter de veracidade incomparáveis.
Procurou compreender-se pontos convergentes e divergentes com o Neo-Realismo, entre os grupos e os membros de ambos. Quem começou, quem desistiu, quem continuou e as suas posturas. Os palcos de acção, as formas de manifestação, as reacções perante estas e o registo que disso se fez.
Na óptica da história cultural e política dividiu-se o trabalho em três partes. A primeira introduz o tema do surrealismo na sua origem francesa, dá conta das bases teóricas, da pluralidade prática, dos relacionamentos sociais e de pontuais momentos históricos que ressaltaram no campo cultural e político, terminando com a tentativa de traçar a dimensão internacional do surrealismo, a sua expansão mundial até penetrar entre nós. Posta a contextualização internacional, passa-se ao âmbito nacional e ao tema de tese, propriamente dito.
A segunda parte, após uma contextualização nacional, trata os esquissos de uma aventura que se desenhou em registos vanguardistas interrompidos pela hegemonia neo-realista. Com a ultrapassagem deste, esses registos iniciais desenvolvem-se, dando alento a uma viagem que afirmou um conturbado e efervescente movimento ou que talvez não tenha passado de conjugações no singular e no plural. Protagonizam-nas dois grupos adversos, cuja saliente efemeridade empolga, entre a explosão e a extinção de vivência, o período constituído entre 1947 e 1952, sendo 1949 o clímax da actividade.
Na última parte distinguem-se três vertentes marcantes dessa aventura que exaltam a nível caracterológico, respectivamente, o âmbito social, cultural e político: o berço fomentador que foi a António Arroio e os cruciais espaços correlativos do Café Hermínius e da Escola Superior de Belas Artes; as exposições conjuntas num esmiuçar de envolvências e cunhos particulares; e as relações dos surrealistas com a oposição política vistas através dos registos daPIDE/DGS.
Para servirem de manancial apoio à leitura, foram ainda elaboradas fichas biográficas dos vários intervenientes da aventura surrealista e uma extensa cronologia, a par da apresentação de um conjunto pertinente de documentos, incluídos em anexo.
 

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