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O Diário
Watergate Sá Carneiro
Antes do 25 de Abril, o cidadão Francisco Lumbralles de Sá Carneiro, figura política já conhecida por ter sido um dos deputados "liberais" escolhidos por Marcello Caetano para animar a Assembleia Nacional fascista, contraiu com seu irmão Ricardo uma dívida de alguns milhares de contos junto do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa. Objectivo "social" do dinheiro assim obtido: entrar no círculo desenfreado da especulação bolsista que então se vivia.
Entretanto, veio o 25 de Abril e a Bolsa foi fechada. A dívida ficou. Os irmãos Sá Carneiro esperaram, de acordo e conivência com os seus amigos do BESCL, que a intentona reaccionária do 28 de Setembro triunfasse. Perderam essa cartada, mas não pagaram a dívida.
Veio o 11 de Março e o BESCL foi nacionalizado. Estava comprometido a fundo com o financiamento de várias organizações contra-revolucionárias. A partir de então, Francisco Lumbralles de Sá Carneiro, que fizera parte do l Governo Provisório, foi mais longe: procurou por vários meios fraudulentos fugir ao pagamento de uma dívida à banca entretanto nacionalizada e que, contando os juros, começou a subir. Actualmente, cifra-se, pelas contas de «o diário», em 33600 contos.
Este livro condensa, documentalmente, a evolução de um escândalo político que já ultrapassou as fronteiras do nosso País e do nosso continente. Sá Carneiro é Primeiro-Ministro, os seus actos não podem ser dissociados do lugar que ocupa. Ao denunciar nas suas colunas aquilo a que justamente chamou o Watergate português, «o diário» cumpriu e continua a cumprir um acto de higiene política voltado para a defesa da inteligência e dignidade do Povo português, das instituições democráticas, do Portugal de Abril.

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